A Ascensão Contínua de The Division 2: Um Fenômeno de Longevidade na Steam

Seis anos após seu lançamento original, o aclamado título de tiro e RPG da Ubisoft, The Division 2, demonstrou uma resiliência notável ao bater um novo recorde de jogadores simultâneos na plataforma Steam. Com a iminência da segunda expansão do jogo, intitulada “Battle for Brooklyn”, o universo pós-apocalíptico de Washington D.C. atraiu 27.482 agentes simultâneos, consolidando-se como um dos jogos de serviço contínuo mais bem-sucedidos e duradouros da indústria. Este feito notável destaca não apenas a qualidade do título, mas também a dedicação da Ubisoft em manter a franquia relevante e vibrante.

A Longevidade Inesperada e o Sucesso da Franquia

Lançado em 2019 como a sequência direta do bem-sucedido The Division – que vendeu mais de 10 milhões de cópias desde 2016 –, The Division 2 se recusou a cair no esquecimento, ao contrário de muitos de seus contemporâneos. A franquia, como um todo, já cativou mais de 40 milhões de jogadores ao redor do mundo, solidificando sua posição como um pilar no portfólio da Ubisoft. A recente marca na Steam é um testemunho da comunidade fiel e da capacidade do estúdio de revitalizar o interesse por meio de novos conteúdos.

A Filosofia por Trás dos Jogos Como Serviço

A manutenção de um jogo com suporte contínuo é um desafio complexo, e os estúdios da Ubisoft têm analogias interessantes para descrevê-lo. Fredrik Brönjemark, produtor sênior de The Division na Ubisoft Massive, compara a tarefa a dirigir um ônibus: todos os passageiros (jogadores) têm opiniões sobre o destino e o percurso do desenvolvimento. Essa metáfora sublinha a necessidade de equilibrar a visão do desenvolvedor com as expectativas da comunidade. A lição primordial, segundo Brönjemark, é nunca considerar os fãs como algo garantido.

François-Xavier Deniele, vice-presidente de marketing e esports de Rainbow Six Siege, havia utilizado anteriormente a imagem de “trocar o motor de um carro em movimento” para ilustrar a complexidade desse modelo operacional. A equipe de The Division adota a analogia do ônibus para enfatizar a importância de manter os jogadores engajados e alinhados com as direções estratégicas do jogo, garantindo que a jornada seja satisfatória para todos.

Reestruturação Técnica e Foco no Endgame

No desenvolvimento de The Division 2, a Ubisoft identificou e endereçou problemas cruciais que impactaram seu antecessor. Um deles era de natureza técnica: a necessidade imperativa de reescrever o código legado e mitigar limitações técnicas. Yannick Banchereau, diretor criativo de The Division 2, explicou que ignorar essa base poderia comprometer a implementação de futuras atualizações e funcionalidades, limitando o potencial de crescimento do jogo a longo prazo.

O segundo desafio estava no conteúdo, especificamente no que diz respeito às atividades pós-campanha. O primeiro The Division recebeu críticas pela falta de opções robustas para o endgame. Para remediar isso na sequência, a equipe inverteu o processo de desenvolvimento: começou projetando a experiência do endgame e, só então, estruturou a campanha principal em torno dela. Banchereau atribui a essa mudança de mentalidade um dos fatores-chave que permitiram a The Division 2 superar a longevidade de seu predecessor.

Suporte Contínuo e a Recusa do Modelo Gratuito

O suporte pós-lançamento de The Division 2 estava inicialmente programado para se encerrar no final de 2020, após o lançamento da expansão “Warlords of New York”. A intenção era realocar os desenvolvedores para outros projetos de grande porte, como Star Wars Outlaws e Avatar: Frontiers of Pandora. No entanto, o sucesso estrondoso do DLC surpreendeu a Ubisoft, que optou por estender o ciclo de vida do jogo.

Fredrik Brönjemark descreve o complexo processo de reconstrução da equipe e a retomada da produção de conteúdo, um esforço que exigiu tempo e dedicação. O trabalho inicial foi focado em fortalecer a base de jogadores existente antes de expandir para novos sistemas e funcionalidades. Curiosamente, ao contrário de títulos como Rainbow Six Siege, que migrou para um modelo gratuito em 2025, a equipe de The Division descartou essa transição. Banchereau afirma que o modelo atual funciona bem e que a mudança para o formato gratuito nunca fez sentido para o jogo. Brönjemark acrescenta que, embora a geração de receita seja crucial, a prioridade é fazê-lo de forma que os jogadores se sintam valorizados, e até o momento, não houve necessidade de alterar a abordagem.

Expansões da Franquia e Reestruturações Internas

O universo The Division não se limitou ao seu segundo capítulo principal. Em 2021, a Ubisoft anunciou The Division Heartland, um título autônomo e gratuito liderado pela Red Storm. Após fases de testes públicos e adiamentos, o projeto foi cancelado como parte de uma ampla reestruturação da empresa, visando uma economia global de 200 milhões de euros. Essa decisão resultou no encerramento das operações de desenvolvimento na Red Storm, com a perda de 105 empregos, além de demissões em estúdios como Massive e Ubisoft Stockholm. Brönjemark, no entanto, destaca que houve colaboração entre as equipes, e algumas das lições aprendidas em Heartland foram incorporadas a The Division 2, mesmo com o cancelamento do projeto.

Além disso, a franquia também se aventurou no mercado mobile com The Division Resurgence. Segundo Brönjemark, o jogo gerou um interesse significativo, inclusive entre jogadores que não são tradicionalmente adeptos de plataformas móveis, um fenômeno que ele atribui à força da base de fãs e ao desejo contínuo por novas experiências dentro do rico universo de The Division.

O Futuro: The Division 3 e a Mudança de Liderança

O futuro da série principal já está em desenvolvimento, com The Division 3 anunciado em 2023, embora sem uma data de lançamento definida. A equipe opera em duas frentes simultâneas: uma dedicada ao suporte contínuo de The Division 2 e outra focada na produção da próxima sequência. Banchereau enfatiza a importância da troca de informações entre as equipes, garantindo que as lições aprendidas e as inovações desenvolvidas em um projeto possam beneficiar o outro.

Recentemente, Julian Gerighty, uma figura proeminente na franquia, assumiu a função de Produtor Executivo de The Division 3, deixando o cargo de Live Director de The Division 2. Sua vasta experiência, que inclui passagens por The Division 1 e The Division 2, será crucial para moldar o próximo capítulo da saga. A Ubisoft tem como objetivo construir sobre o legado existente, levando a franquia a novas alturas, enquanto mantém a qualidade e o engajamento que a comunidade espera.

Conclusão: Um Legado de Resiliência e Adaptação

A história de The Division 2 é um testemunho da capacidade de adaptação e da importância do suporte contínuo em jogos como serviço. De uma reestruturação técnica profunda a uma mudança fundamental na filosofia de design, a Ubisoft conseguiu não apenas manter o jogo relevante, mas também expandir a franquia para novas plataformas e planejar seu futuro. O recente recorde de jogadores na Steam, impulsionado por uma nova expansão, reitera que, com a estratégia certa e um respeito genuíno pela comunidade, um jogo pode realmente se tornar “imortal”, desafiando as expectativas e redefinindo o que significa longevidade na indústria dos videogames.